Pensemos: e, na prática, como é possível evidenciar as desigualdades? Para além das análises de trajetórias e experiências individuais, uma das tecnologias governamentais mais relevantes para tornar legíveis as desigualdades são as pesquisas sociais aplicadas, em especial, o instrumento da pesquisa censitária. O último Censo Demográfico produzido pelo IBGE no ano de 2022 é um excelente instrumento para verificarmos as interdependências ou entrelaçamentos discutidos acima.
Vejamos um exemplo simples. De acordo com os dados do último censo sobre alfabetização, 93% da população brasileira pode ser considerada alfabetizada. Embora esta seja a menor proporção de não-alfabetizados da série histórica, tanto de forma agregada quanto desagregada, quando visualizamos os dados por cor ou raça, percebemos que o índice de analfabetismo entre a população negra é o dobro do entre a população branca. Se considerarmos a população indígena, este número chega a ser quatro vezes maior. Em relação à distribuição territorial, as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste possuem taxas de alfabetização sensivelmente maiores que as do Norte e, em especial, do Nordeste – que tem o dobro da média nacional.
Esses exercícios de comparação são fundamentais para a compreensão sobre as interdependências e entrelaçamentos das desigualdades. Afinal, ao refletirmos sobre informações como as do último Censo Demográfico, percebemos que, mais do que um retrato atualizado da realidade brasileira no tempo e no espaço, esse conjunto de dados traz consigo elementos contextuais importantes.